Gritos O silêncio total não existe. Gritos terríveis e constantes arrebentam meu coração disparado. Por que não silenciam e me deixam na paz acalentadora de meus pensamentos comportados e calados, como as lagartixas à espera dos insetos que circundam a luz. Um baque ritmado emana a contagem daquilo que chamam de tempo.
Escrito por genestreti às 00h52
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O OLHAR DO CÃO Passo apressado pela cidade grande. Na calçada lisa e cinzenta da avenida Paulista, percorro as grades daquilo que foi um dos casarões dos tempos de baronato. Uma mulher, em desajeitado gesto, descarrega garrafas enormes de vinho barato oriundos de uma caminhonete estacionada de maneira irregular. Isto destoa da paisagem absolutamente simétrica, cheia de normas e avisos que brotam nos espaços da outrora natureza. Curioso, observo o movimento da casa encolhida pelas torres que a cercam, e que neste tempo febril, hospeda uma feira do impossível. Quadros se misturam a lonas claras que abrigam roupas exóticas coloridas, parafernálias diversas que parecem espreitar uma possível avalanche de tribos disformes. Um pouco adiante, nos jardins da mansão, gaiolas de alumínio fino conjugado recebem ilustres visitantes internos. São cães, que segundo o aviso, procuram lares mais espaçosos. Nesta área, em que cada animal ocupa uma cela, vejo apenas quatro das dezenas de cubículos ocupados. Uma senhora festiva, distribui afagos no entorno. Diminuo meus passos, alegre pela democrática manifestação de afeto. Ledo engano. O único com aparência de raça, uma possibilidade de cruzamento com labrador, de cor negra, é o que desperta mais sua atenção. Volto meu olhar, do lado de fora, para os outros três. Destes, dois, de alguma maneira, recebem alegremente respingos dos carinhos emanados pelas pontas dos dedos. Mas um, conformado, encontra-se deitado no assoalho irregular do papelão. Olhos caídos,olhos doídos e tristes, expressivos como os condenados à morte, em lamento pela desilusão, pela esperança que partiu. Sinto a comoção tomar de assédio meu interior, rasgando meu ventre a ferro quente. Faço um esforço para não invadir o imóvel pela grade, por achar que a compaixão fosse algo que não pudesse esperar volteios pela entrada. Não tenho coragem pelo respeito às normas do lugar. Apenas olho para ele que me fita no típico olhar canino de tristeza, de baixo para cima. Cantos de olhar brancos que emolduram esferas escuras, fixas. Nos despedimos, por aquilo que achamos que durasse a eternidade. Na minha mente, um grito desesperado e mudo de “eu retornarei, eu retornarei”.
Escrito por genestreti às 01h25
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INSÔNE Disseram que os cogumelos, com suas propriedades alucinógenas, seriam os melhores amigos da criação. Aprendi algo sobre os de cabos longos, que estariam entre os que assim fariam efeito. Procurei-os por sombras de árvores, mas hoje não os achei. Um dia, entre os mais distraídos caminhos, topei com alguns. Mas hoje não. Me avisaram para tomar cuidado com os venenosos, aqueles gordinhos que mais parecem apetitosos. Daqui para frente, tomarei cuidado com os que espelham as aparências mais atraentes, como as pessoas de estética irreparável. Me afogo nas caipirinhas, nos destilados da cana que viram populares cachaças, que são potencializadas pelo limão em suco. São estas meus cogumelos, meus fungos que me fazem em delírio. Hoje me lembro bem de ontem. Que ontem, embora buscasse, não encontrei mais a Padaria Sierra Maestra, na subida da Maromba. Que vi um rapaz com algo como uma paralisia cerebral pular de uma pedra altíssima para um poço em plana cachoeira, acompanhado por uma ave como uma maritaca. Que anda de moto com ele como andou por meu braço, a seu comando. O escorrega agora tem estacionamento controlado, bazares de artesanato underground, artífices que mais parecem desesperados ambulantes com cotas a cumprir, distantes da Maromba antiga, mais selvagem e incontrolável. E que Átila, o anterior proprietário do Sierra Maestra, deve andar perdido por alguma casa alternativa. Justo ele, que em conto distante, parecia imutável, inabalável, feito das pedras do rio. Na sua ausência, almocei uma truta deliciosa com ervas finas, acompanhada de risoto de vegetais, ao som do rio que descia pelas pedras, na janela da mesa que eu ocupava. Feitas com esmero por Antonio, um paulista perdido por lá, que diz não trocar aquela vida por nada. Quando chegará minha vez?
Escrito por genestreti às 14h35
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FOLHAS MORTAS Hoje, na noite clara que se espraiava pela varanda, encontrei folhas secas derramadas pelo chão. Não que estas folhas fossem objetos estranhos a meu olhar. Apenas que, desta feita, a forma, a disposição, a quantidade concentrada delas me lembraram um pesar de natureza que sentia saudade. Sei o porquê, mas dele, não tornarei explícito. Era apenas o chorar de algo que se despregara, que se afastara de alguém que sentira o momento da separação inevitável. Árvores: tenham a certeza. De vocês, sempre, uma lembrança molhada por minhas lágrimas e afetos caminharão juntos nos corredores que sentirão meus passos cansados enquanto minhas pernas se moverem. Pudesse eu, colocaria todas juntas nas páginas de meus livros, para que, algum dia, na surpresa melancólica de um folhear simples, pudesse ser recuperada quando, também, me tornasse seco e abandonado para, juntos, caminharmos ao leito restaurador, na luz tremulante da chama de um castiçal.
Escrito por genestreti às 16h42
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DA QUEDA CONSENTIDA Acompanho o vagar pelo quinto movimento da Patética de Tchaikovsky. O constante soar dos violinos me incendeia e me traz medo. As trompas anunciam um precipício de inferno dantesco, em quedas abissais. Clamor por passados que retornam nos dedos desgastados e trêmulos. Imagens, vozes que se misturam à infindável nota insistente, ao longínquo interminável que rodopia por minha mente circular. Vejo sombras que me observam de seus postos inóspitos de montanhas inconcebíveis. Estático e atento, caminho por estradas iluminadas, por luares sombrios e terrificantes, na cadência de quem não quer continuar. Sei que se parar, o indescritível me alcançará com toda sua volúpia e o persistente soar temerário. Em queda livre, vou de encontro ao meu interior. Um monstro de dentes pontiagudos e devastadores, habita este fim de túnel. Deixo a fronteira daquilo que chamam de candura para experimentar o triste fel de meus fantasmas. Estes fantasmas que sabem me fazer compreender que o medo nos torna mais humildes e benevolentes. Meus bons e simpáticos entes da virilidade, que escapam de minha suposta realidade, jogando nossas vidas na lama de pântanos ressecados. Faz-se o momento de ascensão, do caminho de volta, vagaroso pelos dedos que cravam a corda esfacelada pelo uso. Desta viagem paralela ao universo extremo.
Escrito por genestreti às 14h46
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DELÍRIO Tem. Tempo é. Que seja tempo. Que conta pelo ouvido. Que seu sabor é insosso. Que não sentimos tentáculos. Que não assistimos a seu desfile. Que apenas ouvimos seus sussurros. Que o deglutimos e o devolvemos ao ar instável. Que damos mais a ele o que não é passível de merecimento. Que seus olhos marejados tornam-se incansáveis. Que sua linha correta não se desenha. Que nos coloca com alerta em vão. Que valoriza o traje discreto. Que mente sem pudor. Que nos deglute. Que não atira. Atira sim. Não.
Escrito por genestreti às 02h32
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O BARBEIRO Se chama Manente. Ao menos é o que se lê no frontão das portas alongadas, da madeira castigada em pintura rústica acinzentada, com fundo tétrico escuro que caminha ao infinito. É o preparo para a volta de um tempo em que os sons soavam metálicos nos engates mecânicos. Manente, o velho que se veste em fino branco traje, esboça um sorriso decorado pelo cansaço da monotonia. Não mais questiona, mudo em seu mundo de químicas perfumadas e talcos que flutuam ao sabor de aventais puídos, que vestem variados incógnitos incertos. Na única cadeira sem disputas acirradas, personagens encaram destinos que se decidem pelas mãos de Manente. Malabarismos e ruídos cristalinos entoam a dança solitária que se desdobra ao círculo da poltrona imóvel. Fios delicados, tufos macios, que escorrem ao sabor aleatório do piso quadriculado. Na cadeira, me faço acompanhar pela única leitura oferecida. Meu olhar se perde em notícias mais do que requentadas, embaladas pelo jornal de uma semana de idade. No ambiente de Manente, os fatos aparecem na velocidade do corte. É lá que o instantâneo se ausenta. Desta fotografia, Manente revela um universo que se fecha em si mesmo, em que a realidade é mera passageira da janela semi-aberta. Custo a crer que lá se encontra o único lugar em que deixo partes de mim abandonadas pelo chão, e que, em um segundo momento, serão misturadas, massacradas, formando novo ser disforme com partes dos outros incógnitos. Estará, a partir deste momento, aos pés de Manente, que após minha partida, será o senhor absoluto destes filhos rejeitados. Manente é o que acolhe os alijados que foram acariciados por seus dedos em tempos remotos. Manente não ceifa, apenas embala os fios que desceram em lágrimas pelo ingrato criador. E que agora repousarão no obscuro espaço em companhia de Manente.
Escrito por genestreti às 03h32
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REENCONTRO Ele aparece rapidamente. Ligeiro, sorriso que afasta a timidez constante do lugar, pergunta se estive no bar do gordo. Observo o menino, uma criança que se abre do meio da escuridão entrecortada por luzes amareladas de lâmpadas mortiças. Em minha feição de dúvida, insiste se sou de São Paulo. Ao meu aceno positivo, relata que lá no bar também estivera e que se recordava de mim. Sorriso aberto iluminado por dentes brancos, resplandecentes e maravilhosos, que ponteiam ombros mal cobertos por rotas vestes, desfralda a alegria de reencontro. Algo inusitado pela esperteza e a amizade incondicional, sou surpreendido na memória e na audácia que, de tão singela, correm como um rio de curso obscuro. Perguntas do que faz, do que estuda, são respondidas de maneiras incontinentes e seguras. Suas assertivas caminham por plagas que descortinam uma vivência que espantam pela simplicidade do lugar. Estou em Milho Verde, em uma retirada povoação, partícipe como testemunha de uma festa que escancara a condição humana em seu estado bruto. Ao ser questionado de seus sonhos de carreira, responde, na mais natural das respostas, que deseja ser cantor. Apenas. Sei que deixei para trás um garoto negro, de vestes rasgadas, que sorri e se diverte com o movimento de poucas pessoas de uma festa escondida. Que cantará sonhos de palcos imaginados acompanhado por músicos eleitos enquanto me perco no cinza dos edifícios daquilo que chamam de metrópole. Sem pressa, me afasto das formas puras e estáveis, nas tristezas que calam minhas lembranças. Sinto que, perdido, desapareço vagarosamente.
Escrito por genestreti às 21h55
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NEBLINA EM LUAR DEMONÍACO Densa névoa esconde encantos noturnos e soturnos mascarando estampas divinas em devaneios dolentes. Bruxos e espectros disformes passeiam por pastagens passageiras. Como é cruel a credulidade encarnada.
Escrito por genestreti às 03h48
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Escuridão É um silêncio que para muitos silencia. É meu silêncio que sibilina, que zumbe entre graves dissonantes entrecruzado ao constante agudo uniforme. Interminável. Entrecorta latido distante, latido próximo em resposta, zurrar, grasnar. É o silêncio que decola meu pulmão, eleva meu martelar interno, que sacode os pensamentos. É meu silêncio que se perde na parede da escuridão. Que só cessa na luz que tarda mas chega, calando o silêncio do invisível até amanhã.
Escrito por genestreti às 02h46
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DESCOBERTA Como renasce um homem? Se a biologia tenta desfraldar suas bandeiras, a explicação caminhará por células, zigotos e massas amorfas. Se a química é requisitada, sais, combinações de elementos definidos por números atômicos e ligações dativas se interpõem. Até nos anais do direito e da escrituração este fenômeno é percebido por meio de atas e certidões que atestam e confirmam a observância de uma vida que continua. Mas inconformismos e desvios que interceptam meus entrecruzados caminhos não explicam o inexplicável de forma categórica. Tentarei ser explícito. Na tardia noite anterior, fiz questão de não me olvidar em ajustar o despertador para as seis e vinte, horário cartorial de meu nascimento no ano de cinqüenta e sete do século anterior. Queria desfrutar de ares, de temperaturas que me fizessem retorno ao dia que abrira olhos externos. E tal foi feito, e tal foi realizado. No horário previsto, um alarme crescente tirou meu pensamento de pensamentos paradoxais e cavernosos. Porém, após a concentração pelo que se apercebia, um medo e sensações incomodas arrebataram o leito protetor. Era o pavor pelo que se avizinhava. Ventos uivantes e sons arrepiantes caminharam pelas ventanas da madeira crua, em arauto de um dia sombrio, pesadelo que se prolongava nas estepes infindáveis da consciência. Nesta hora, a biologia, a química e até o direito avantajavam seus tentáculos pela manta que recobria meu extenuado corpo. O levantar foi de difícil escalada, costa íngreme e, possivelmente, intransponível. Rochas pontiagudas dividiam centímetros com vegetação hostil, retalhando o indefeso corpo nesta injusta proporção. Lascas de material humano ficaram pelo caminho vertical. A dificuldade se perpetuara, embora uma mudança de ambiente pudesse ser sopro de esperança no denso dia. As horas se arrastavam pelos ponteiros que esmagavam as medidas já escassas. Chegara o fim de tarde acompanhado pelos ventos que sentira na manhã, precipitando, novamente, os intestinos retorcidos. Luzes, pequenos pontinhos de luz começaram a brilhar na escada que me separava de meu último obstáculo geográfico da dita noite. Braços, lábios, mãos em carinho me seguravam. Com dificuldade desmesurada caminhei ao destino traçado. As pequenas luzes, transformadas em olhares que se multiplicaram, brilharam intensamente no horizonte descortinado. O pesadelo virara um sonho agradável. Uma avalanche de amor descontrolado me abraçava carinhosamente, compreendendo a falta de afeição que me arrebatara, no sentimento de vazio experimentado. Pessoas. Meninos e meninas, rapazes e moças, crianças se avolumaram a meu redor. Luzes, novamente elas, abriram caminhos a meu passado. A mágica se estabelecia. Beijos e abraços se multiplicavam na confusão de braços, mãos, dedos e, principalmente, amores. Retorno a meu lar de início, à casa que me assustara. Um Tchaikovski embala meu texto e vinho. Reflito. O que me fizeram foi de um carinho e amor inexplicáveis. São meus filhos, meus irmãos, minha família, daqueles que se sente ciúmes quando outros tentam tomá-los. Me ensinaram, hoje, mais do que pude aprender. Que o amor da docência é possível quando se vai a fundo do particular, na busca de nosso mais íntimo refúgio. Os que assim atravessam esta fronteira, sabem que, dali para frente, ocuparão indelevelmente corações. Que serão intermináveis, que serão presentes, infinitos e ecoarão pelas fronteiras longínquas, sem perder a nota musical da melodia que insistirá em tocar. Quero dançar permanentemente a música inebriante do amor incólume e insolúvel, pois, para desespero da biologia, da química e do direito, o renascer obedece aos sentimentos emanados daquilo que é mais puro e inexplicável, apenas se sente.
Escrito por genestreti às 14h06
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ESCALA No balanço de um assento, uma sonata triste e melancólica embala dois olhos fumegantes que insistem seu olhar. Não tento desvios, apenas os brancos e resplandecentes brilhos pálidos fitam em minhas contorcidas entranhas. Recortes distantes dos estáticos horizontes soltam incômodos pelas escalas das notas, monótonas, desfilando lembranças impertinentes.
Escrito por genestreti às 09h42
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RETOMADA Serão em poucas palavras. Sinto que elas brotarão de acordo com temas puxados pelos sentidos, pelas entranhas que se desvanecerão. Palavras e frases que soarão desconexas. Palavras e frases que sairão da liberdade reprimida e incontida. Que os seres abissais tremulem pelas veias corroídas, pelos braços cansados, pelos dedos instáveis, pelos pensamentos desmesurados e silenciados. Que o tempo exiguo seja o protagonista de caminhos repisados. Que seu valor seja aproveitado como matéria e sonho. Sonho. Pois agora tornarei a cortina rasgada, a janela aberta, respirarei o ar que sacolejava o vidro, sorverei a água da chuva que chovia lá fora. Pois vamos ver no que dá. Se der, que trilhe a escarpa, nas farpas de minha pele calejada.
Escrito por genestreti às 15h43
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DOS SONHOS CÁUSTICOS Tenho tido sonhos surreais. Em uma noite destas, um cachorro, extremamente transtornado, com uma provável raiva incurável invadiu o corredor estreito de uma possível casa que habitava, rasgando seu corpo pelo portão de madeira devassável. Seus dentes, e não só os caninos eram afilados e afiados como os de um cachorro em sua fase mais tenra, mas, maliciosamente potentes como o das serpentes prestes a inocular seu portentoso veneno. Passei boa parte dos momentos que duravam aqueles tempos segurando o cão pelas mandíbulas, impedindo seu maléfico fechamento, chegando a me ferir em certos momentos. O fato era que o inusitado não causava estranheza por parte de meus passíveis interlocutores daquela viagem cósmica. Era parte de mim. A representação disto não me dizia respeito, apenas que era presença constante, companhia permanente. Por vezes, uma tentativa de cravar seus dentes em minha segura mão tinha efêmero sucesso, logo abortado pela firmeza de minha ação. Éramos inseparáveis. Refleti sobre isto, após o sobressalto conseqüente da noite agitada. O cão era meu destino ou os caminhos que permanecem em meu horizonte? Seria a imagem personificada de minhas mazelas companheiras, padecendo solidário das pedras que me derrubam? Independente da resposta, a imagem forte e contínua sonha o pesadelo persistente.
Escrito por genestreti às 15h13
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TESTEMUNHA E CONTADOR Sou pego pensando sobre meu nascimento. Após meses de reflexão, acabo acreditando que tive, até o momento, dois nascimentos e uma morte prematura. Mas, nestas condições, será meu segundo nascimento experiência idêntica ao primeiro? Ponderei sobre o caso e vejo que, se do primeiro pouco me lembro, na do segundo trago a carga de dores lancinantes, de confusas elucubrações, em alucinantes passeios por caminhos sensitivos e realidades confusas. Estive a ponto de desistir, de abdicar dos princípios libertários e fomentar uma nova morte. Desisti da empreitada. Segui pelos caminhos, irresoluto, cadente, sôfrego, persistente como o córrego que atravessa a parte final de minha morada, na melodia imortal e constante. Este nascimento, definitivamente, deixa de insistir no passado, visto que será. Se assim é, significa, pelo contrário, o nascimento de uma nova pessoa e a derradeira morte da anterior. E esta, menos esperançosa, menos ingênua, mas, de forma similar ao modelo proposto, sonhador. Continua uma trilha menos perversa, mas, assim mesmo, feita de turvas imagens que se abrem, engolfam carinhos abandonados mesclados com lágrimas secas. Percebo, entretanto, que este novo nascimento trouxe das trevas a fumaça remanescente anterior, os espectros malditos e os afáveis que caminham bruxuleantes pelos olhos que nada enxergam. Apenas sentem. Neste aspecto, outros sentidos desabrocham suas pétalas, que pareciam ressecadas. A morte do ser pregresso serve de lamúria e alimento, paradigma malfazejo, aquilo que se teme e nos aproxima, paradoxalmente. Este corpo insepulto é o que se junta aos outros espectros perturbadores, aos fantasmas eternos. Sinto que, apesar dos esforços, as atitudes serão vãs, como uma fruta, que mesmo desaparecendo em boca ávida, divulga o aroma em seu novo receptáculo. Então, que a morte seja a prova definitiva da permanência, da insistência. Afinal, para este moribundo, a morte sempre será companheira do movimento, da roda viva que nos traga. Garganta abaixo. Conformado, seguirei o fluxo, mas combatendo, gritando, exalando, atento aos pequeninos sons que fazem da vida uma poesia. A vida, pois, será conseqüência do desaparecimento. Apenas a transformação de uma passível testemunha para um contador de estórias.
Escrito por genestreti às 13h39
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