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Blog de Paulo Genestreti
 


O LICOR DE JABUTICABA

 

 

Escolher o aroma e o gosto que derrubará essências pela garganta ávida é um exercício do mais puro sensitivo despertar. Nesta noite, o de Jabuticaba, possivelmente por razões sentimentais, é o escolhido como néctar que embalará divagares. Em seu gosto marcante, lembranças de cenários perdidos, de sons ausentes e distantes, aromas perpetuados caminham lentamente por meandros cerebrais. Saudades dos amigos distantes, dos caminhos mineiros, das pedras monumentais, da aurora descortinada, do afastamento de problemas que ganham dimensões diminutas. A chuva insiste em molhar meu piso indicando o caminho das entranhas da terra que se abre pelos pingos. Saudades, saudades, com o gosto de que retorno, que sempre irei retornar onde nasce o solar da felicidade inocente, traduzida pelos olhares sinuosos, pelos dentes desaparecidos, pela cor escura das peles que lá habitam. Que este manto seja minha mortalha eterna, mesmo quando não mais respirar. Quando não mais puder olhar.



Escrito por genestreti às 18h06
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CRIANÇAS DO GUETO

Olhos sem planos de fundo, sem a luz refletida, na opacidade do tempo que os consumiu. Setenta anos se passaram, e seus olhos não puderam se tornar envelhecidos, carregados pelas dobras exageradas de uma pele flácida e viscosa de senis. Apesar disto, até hoje, permanecem crianças condenadas a nos observar, clamando pela compaixão da fome de um destino incompreensível. Tento, por mais que tente, não consigo lhes salvar. Das imagens, em meus sonhos, penso em ter a força muscular para lhes resgatar do inferno que os homens altos engendraram. Apesar disto, aguardam nosso socorro encarceradas nas molduras amareladas que parecem indeléveis, profusas e persistentes. Tento, juro que tento, atravessar esta janela, que de tão estreita, apenas consigo sentir seus minúsculos dedos encardidos tocando levemente os meus. Quantos metais e madeiras espancaram seus atrofiados braços, ao mesmo tempo em que a indiferença caminhava a passos rápidos ao redor. Cercaram seus horizontes para que seu vagar tivesse um estreito limite, mas esqueceram que vocês escapariam pelo alto, voando às maiores altitudes já percorridas. Outras puderam escapar pelas mãos de uma polonesa, Irena Sendler.

Olhos sem planos de fundo, sem a luz refletida, na opacidade do tempo que os consome. Este tempo é atual, e seus olhos tornam-se envelhecidos, carregados pelas dobras de uma pele flácida e viscosa dos esquecidos. Apesar disto, hoje, permanecem crianças condenadas a nos observar enquanto aspiram sacos plásticos e acendem luzes em minúsculos cachimbos. Tento, por mais que tente, não consigo lhes salvar. Das imagens da realidade de nossas ruas nossos homens altos continuam a lhes engendrar o inferno. Apesar disto, aguardam nosso socorro livres, debulhadas pelas calçadas cinzentas e frias. Tento, juro que tento, atravessar este abismo, que de tão profundo, não consigo tocar, nem de leve, parte alguma de seus macerados corpos imundos e fétidos. Quantos metais e madeiras espancam seus atrofiados braços, ao mesmo tempo em que a indiferença caminha a passos rápidos ao redor. Seus horizontes são limitados pelos prédios e marquises que podem lhes abrigar e, juntos, se agasalharem, sem escapatória, por baixo dos respiros das estações de metrô. 

Crianças, Irena Sendler está morta.



Escrito por genestreti às 14h10
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DAS SUBSTÂNCIAS

 

As coisas e as substâncias que compõem nosso entorno são mais ricas e profundas que nossa ilusória avaliação superficial permite.

Quero a busca de seus tons profundos e dispersos na composição do todo.

E neles, mergulharei, me perdendo em seus meandros surreais.

 Por lá, me ausentarei, sem breve retorno.



Escrito por genestreti às 19h38
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DIVAGANDO

 

Não temos mais tempos para divagações.

Somos impacientes por conta da fila que anda e aflitos coveiros dos sonhos alheios.



Escrito por genestreti às 19h36
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BLOGS

 

Um blog é a rejuvenescida garrafa com uma carta ou bilhete atirada ao mar.



Escrito por genestreti às 19h35
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Gritos

 

O silêncio total não existe.

Gritos terríveis e constantes arrebentam meu coração disparado.

Por que não silenciam e me deixam na paz acalentadora de meus pensamentos comportados e calados, como as lagartixas à espera dos insetos que circundam a luz ?

Um baque ritmado emana a contagem daquilo que chamam de tempo.



Escrito por genestreti às 00h52
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O OLHAR DO CÃO

 

 

Passo apressado pela cidade grande. Na calçada lisa e cinzenta da avenida Paulista, percorro as grades daquilo que foi um dos casarões dos tempos de baronato. Uma mulher, em desajeitado gesto, descarrega garrafas enormes de vinho barato oriundos de uma caminhonete estacionada de maneira irregular. Isto destoa da paisagem absolutamente simétrica, cheia de normas e avisos que brotam nos espaços da outrora natureza. Curioso, observo o movimento da casa encolhida pelas torres que a cercam, e que neste tempo febril, hospeda uma feira do impossível. Quadros se misturam a lonas claras que abrigam roupas exóticas coloridas, parafernálias diversas que parecem espreitar uma possível avalanche de tribos disformes. Um pouco adiante, nos jardins da mansão, gaiolas de alumínio fino conjugado recebem ilustres visitantes internos. São cães, que segundo o aviso, procuram lares mais espaçosos. Nesta área, em que cada animal ocupa uma cela, vejo apenas quatro das dezenas de cubículos ocupados. Uma senhora festiva, distribui afagos no entorno. Diminuo meus passos, alegre pela democrática manifestação de afeto. Ledo engano. O único com aparência de raça, uma possibilidade de cruzamento com labrador, de cor negra, é o que desperta mais sua atenção. Volto meu olhar, do lado de fora, para os outros três. Destes, dois, de alguma maneira, recebem alegremente respingos dos carinhos emanados pelas pontas dos dedos. Mas um, conformado, encontra-se deitado no assoalho irregular do papelão. Olhos caídos,olhos doídos e tristes, expressivos como os condenados à morte, em lamento pela desilusão, pela esperança que partiu. Sinto a comoção tomar de assédio meu interior, rasgando meu ventre a ferro quente. Faço um esforço para não invadir o imóvel pela grade, por achar que a compaixão fosse algo que não pudesse esperar volteios pela entrada. Não tenho coragem pelo respeito às normas do lugar. Apenas olho para ele que me fita no típico olhar canino de tristeza, de baixo para cima. Cantos de olhar brancos que emolduram esferas escuras, fixas.

Nos despedimos, por aquilo que achamos que durasse a eternidade. Na minha mente, um grito desesperado e mudo de “eu retornarei, eu retornarei”.



Escrito por genestreti às 01h25
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INSÔNE

 

Disseram que os cogumelos, com suas propriedades alucinógenas, seriam os melhores amigos da criação. Aprendi algo sobre os de cabos longos, que estariam entre os que assim fariam efeito. Procurei-os por sombras de árvores, mas hoje não os achei. Um dia, entre os mais distraídos caminhos, topei com alguns. Mas hoje não. Me avisaram para tomar cuidado com os venenosos, aqueles gordinhos que mais parecem apetitosos. Daqui para frente, tomarei cuidado com os que espelham as aparências mais atraentes, como as pessoas de estética irreparável.

Me afogo nas caipirinhas, nos destilados da cana que viram populares cachaças, que são potencializadas pelo limão em suco. São estas meus cogumelos, meus fungos que me fazem em delírio.

Hoje me lembro bem de ontem.

Que ontem, embora buscasse, não encontrei mais a Padaria Sierra Maestra, na subida da Maromba. Que vi um rapaz com algo como uma paralisia cerebral pular de uma pedra altíssima para um poço em plana cachoeira, acompanhado por uma ave como uma maritaca. Que anda de moto com ele como andou por meu braço, a seu comando.

O escorrega agora tem estacionamento controlado, bazares de artesanato underground, artífices que mais parecem desesperados ambulantes com cotas a cumprir, distantes da Maromba antiga, mais selvagem e incontrolável. E que Átila, o anterior proprietário do Sierra Maestra,  deve andar perdido por alguma casa alternativa. Justo ele, que em conto distante, parecia imutável, inabalável, feito das pedras do rio.

Na sua ausência, almocei uma truta deliciosa com ervas finas, acompanhada de risoto de vegetais, ao som do rio que descia pelas pedras, na janela da mesa que eu ocupava. Feitas com esmero por Antonio, um paulista perdido por lá, que diz não trocar aquela vida por nada.

Quando chegará minha vez?



Escrito por genestreti às 14h35
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FOLHAS MORTAS

 

Hoje, na noite clara que se espraiava pela varanda, encontrei folhas secas derramadas pelo chão. Não que estas folhas fossem objetos estranhos a meu olhar. Apenas que, desta feita, a forma, a disposição, a quantidade concentrada delas me lembraram um pesar de natureza que sentia saudade. Sei o porquê, mas dele, não tornarei explícito.

Era apenas o chorar de algo que se despregara, que se afastara de alguém que sentira o momento da separação inevitável.

Árvores: tenham a certeza.

De vocês, sempre, uma lembrança molhada por minhas lágrimas e afetos caminharão juntos nos corredores que sentirão meus passos cansados enquanto minhas pernas se moverem. Pudesse eu, colocaria todas juntas nas páginas de meus livros, para que, algum dia, na surpresa melancólica de um folhear simples, pudesse ser recuperada quando, também, me tornasse seco e abandonado para, juntos, caminharmos ao leito restaurador, na luz tremulante da chama de um castiçal.



Escrito por genestreti às 16h42
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DA QUEDA CONSENTIDA

 

Acompanho o vagar pelo quinto movimento da Patética de Tchaikovsky. O constante soar dos violinos me incendeia e me traz medo. As trompas anunciam um precipício de inferno dantesco, em quedas abissais. Clamor por passados que retornam nos dedos desgastados e trêmulos. Imagens, vozes que se misturam à infindável nota insistente, ao longínquo interminável que rodopia por minha mente circular. Vejo sombras que me observam de seus postos inóspitos de montanhas inconcebíveis. Estático e atento, caminho por estradas iluminadas, por luares sombrios e terrificantes, na cadência de quem não quer continuar. Sei que se parar, o indescritível me alcançará com toda sua volúpia e o persistente soar temerário. Em queda livre, vou de encontro ao meu interior. Um monstro de dentes pontiagudos e devastadores, habita este fim de túnel. Deixo a fronteira daquilo que chamam de candura para experimentar o triste fel de meus fantasmas. Estes fantasmas que sabem me fazer compreender que o medo nos torna mais humildes e benevolentes. Meus bons e simpáticos entes da virilidade, que escapam de minha suposta realidade, jogando nossas vidas na lama de pântanos ressecados.

Faz-se o momento de ascensão, do caminho de volta, vagaroso pelos dedos que cravam a corda esfacelada pelo uso. Desta viagem paralela ao universo extremo.



Escrito por genestreti às 14h46
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DELÍRIO

 

Tem.

Tempo é.

Que seja tempo.

Que conta pelo ouvido.

Que seu sabor é insosso.

Que não sentimos tentáculos.

Que não assistimos a seu desfile.

Que apenas ouvimos seus sussurros.

Que o deglutimos e o devolvemos ao ar instável.

Que damos mais a ele o que não é passível de merecimento.

Que seus olhos marejados tornam-se incansáveis.

Que sua linha correta não se desenha.

Que nos coloca com alerta em vão.

Que valoriza o traje discreto.

Que mente sem pudor.

Que nos deglute.

Que não atira.

Atira sim.

Não.



Escrito por genestreti às 02h32
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O BARBEIRO

 

Se chama Manente. Ao menos é o que se lê no frontão das portas alongadas, da madeira castigada em pintura rústica acinzentada, com fundo tétrico escuro que caminha ao infinito. É o preparo para a volta de um tempo em que os sons soavam metálicos nos engates mecânicos. Manente, o velho que se veste em fino branco traje, esboça um sorriso decorado pelo cansaço da monotonia. Não mais questiona, mudo em seu mundo de químicas perfumadas e talcos que flutuam ao sabor de aventais puídos, que vestem variados incógnitos incertos. Na única cadeira sem disputas acirradas, personagens encaram destinos que se decidem pelas mãos de Manente. Malabarismos e ruídos cristalinos entoam a dança solitária que se desdobra ao círculo da poltrona imóvel. Fios delicados, tufos macios, que escorrem ao sabor aleatório do piso quadriculado. Na cadeira, me faço acompanhar pela única leitura oferecida. Meu olhar se perde em notícias mais do que requentadas, embaladas pelo jornal de uma semana de idade. No ambiente de Manente, os fatos aparecem na velocidade do corte. É lá que o instantâneo se ausenta. Desta fotografia, Manente revela um universo que se fecha em si mesmo, em que a realidade é mera passageira da janela semi-aberta.

Custo a crer que lá se encontra o único lugar em que deixo partes de mim abandonadas pelo chão, e que, em um segundo momento, serão misturadas, massacradas, formando novo ser disforme com partes dos outros incógnitos. Estará, a partir deste momento, aos pés de Manente, que após minha partida, será o senhor absoluto destes filhos rejeitados. Manente é o que acolhe os alijados que foram acariciados por seus dedos em tempos remotos. Manente não ceifa, apenas embala os fios que desceram em lágrimas pelo ingrato criador. E que agora repousarão no obscuro espaço em companhia de Manente.



Escrito por genestreti às 03h32
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REENCONTRO

 

Ele aparece rapidamente.

Ligeiro, sorriso que afasta a timidez constante do lugar, pergunta se estive no bar do gordo. Observo o menino, uma criança que se abre do meio da escuridão entrecortada por luzes amareladas de lâmpadas mortiças. Em minha feição de dúvida, insiste se sou de São Paulo. Ao meu aceno positivo, relata que lá no bar também estivera e que se recordava de mim. Sorriso aberto iluminado por dentes brancos, resplandecentes e maravilhosos, que ponteiam ombros mal cobertos por rotas vestes, desfralda a alegria de reencontro. Algo inusitado pela esperteza e a amizade incondicional, sou surpreendido na memória e na audácia que, de tão singela, correm como um rio de curso obscuro. Perguntas do que faz, do que estuda, são respondidas de maneiras incontinentes e seguras. Suas assertivas caminham por plagas que descortinam uma vivência que espantam pela simplicidade do lugar. Estou em Milho Verde, em uma retirada povoação, partícipe como testemunha de uma festa que escancara a condição humana em seu estado bruto. Ao ser questionado de seus sonhos de carreira, responde, na mais natural das respostas, que deseja ser cantor. Apenas.

Sei que deixei para trás um garoto negro, de vestes rasgadas, que sorri e se diverte com o movimento de poucas pessoas de uma festa escondida. Que cantará sonhos de palcos imaginados acompanhado por músicos eleitos enquanto me perco no cinza dos edifícios daquilo que chamam de metrópole. Sem pressa, me afasto das formas puras e estáveis, nas tristezas que calam minhas lembranças.

Sinto que, perdido, desapareço vagarosamente.



Escrito por genestreti às 21h55
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NEBLINA EM LUAR DEMONÍACO

 

 

Densa névoa esconde encantos noturnos e soturnos

mascarando estampas divinas em devaneios dolentes.

Bruxos e espectros disformes passeiam por pastagens passageiras.

Como é cruel a credulidade encarnada.

 



Escrito por genestreti às 03h48
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Escuridão

 

É um silêncio que para muitos silencia.

É meu silêncio que sibilina, que zumbe entre graves dissonantes entrecruzado ao constante agudo uniforme. Interminável.

Entrecorta latido distante, latido próximo em resposta, zurrar, grasnar.

É o silêncio que decola meu pulmão, eleva meu martelar interno, que sacode os pensamentos.

É meu silêncio que se perde na parede da escuridão.

Que só cessa na luz que tarda mas chega, calando o silêncio do invisível até amanhã.



Escrito por genestreti às 02h46
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